IA no Judiciário: o que 81 mil pessoas revelam sobre o futuro do Direito

Uma pesquisa global com 81 mil pessoas revela o que profissionais do Direito esperam da IA. Patrícia Medeiros analisa os dados e o impacto no Judiciário brasileiro.

Uma pesquisa global inédita publicada pela Anthropic, empresa criadora do Claude, ouviu 80.508 usuários de inteligência artificial em 159 países e 70 idiomas para entender o que as pessoas realmente esperam dessa tecnologia. Os dados chegam em boa hora: são o maior estudo qualitativo multilíngue já realizado sobre o tema e oferecem uma fotografia honesta de como profissionais de diversas áreas, inclusive operadores do Direito, estão vivendo a transição para um mundo mediado por IA.

Como tenho observado na prática judicial, há uma diferença abissal entre o debate teórico sobre inteligência artificial e o que de fato acontece quando uma juíza, um advogado ou um servidor público começa a usar essas ferramentas no dia a dia. O estudo da Anthropic conseguiu capturar essa diferença de forma quantitativa e qualitativa ao mesmo tempo, o que o torna uma referência obrigatória para quem pensa seriamente sobre IA no Judiciário.

Neste artigo, analiso os principais achados da pesquisa sob a ótica do Direito e do Poder Judiciário brasileiro. O que esses dados dizem sobre as esperanças, os medos e os dilemas que já vivemos dentro das varas, dos escritórios e das faculdades de Direito?

O que os profissionais do Direito mais esperam da IA

A pesquisa classificou as respostas de 80.508 pessoas em nove grandes visões sobre o que querem da inteligência artificial. A mais citada, por 18,8% dos participantes, foi a “excelência profissional”: usar IA para eliminar tarefas repetitivas e liberar tempo para trabalho estratégico, resolução de problemas complexos e domínio técnico da profissão.

Esse dado ressoa diretamente com a realidade jurídica. Advogados lidam com um volume imenso de tarefas mecânicas: triagem de documentos, elaboração de minutas padrão, localização de jurisprudência, controle de prazos. Se a IA pode absorver parte desse trabalho, o profissional recupera tempo para o que realmente exige julgamento humano, análise crítica e responsabilidade ética.

Na pesquisa, um profissional de saúde dos Estados Unidos descreveu a situação de forma precisa: recebia entre 100 e 150 mensagens de médicos e enfermeiros por dia, com grande parte do esforço cognitivo consumido em documentação. Com o uso de IA, esse peso foi aliviado, sobrando mais tempo e paciência para o que realmente importava. Traduzindo para o mundo jurídico: é exatamente o que os profissionais do Direito relatam quando passam a usar ferramentas de IA com consistência.

O segundo dado mais relevante para o público jurídico aparece na categoria de “transformação pessoal” (13,7%), que inclui o uso de IA como suporte ao aprendizado, ao crescimento e ao desenvolvimento de competências. No Judiciário, onde a atualização permanente é condição de excelência, esse uso tem peso especial.

A tensão que todo advogado já conhece: IA confiável ou perigosa?

O dado mais revelador da pesquisa para a prática jurídica está na seção sobre preocupações. A “confiabilidade” foi a principal preocupação levantada por 26,7% dos participantes. E o estudo revelou algo ainda mais relevante: quase metade dos advogados entrevistados relataram ter enfrentado a questão da confiabilidade da IA diretamente, em primeira mão.

Dito isso, a pesquisa também mostra o outro lado: advogados têm as maiores taxas de benefícios realizados com IA na tomada de decisões, de todos os grupos profissionais analisados. Ou seja, são os que mais se decepcionaram com erros da ferramenta e, ao mesmo tempo, os que mais colheram resultados concretos quando a usaram bem.

Essa dualidade não é contraditória: é o retrato exato do estágio em que a IA se encontra. A ferramenta entrega valor real, mas exige supervisão qualificada. Ela acelera o trabalho, mas não dispensa o julgamento do profissional. No Direito, onde erros têm consequências para vidas e patrimônios, essa supervisão não é opcional: é parte integrante da responsabilidade profissional.

A pesquisa usa a expressão “light and shade” (luz e sombra) para nomear esse fenômeno: os mesmos recursos que geram benefícios também produzem riscos. Há uma tensão entre usar IA para aprender e tornar-se tão dependente dela que se para de pensar. Há uma tensão entre se impressionar com a qualidade da resposta e ser surpreendido por um erro grave em seguida.

Cediço é que, no Judiciário, essa tensão exige resposta institucional, não apenas individual. Protocolos, treinamento e supervisão não são excessos burocráticos: são as condições mínimas para que a IA produza mais justiça do que injustiça.

Governança, privacidade e os riscos que mais preocupam juristas

Entre as preocupações mapeadas pela pesquisa, três têm relevância direta para o Direito e para o Judiciário brasileiro: governança (14,7%), vigilância e privacidade (13,1%) e uso malicioso (13%).

A preocupação com governança representa a ausência de marcos jurídicos claros para responsabilizar os atores quando a IA causa danos. No Brasil, esse debate é atual: a regulação de IA ainda tramita no Congresso, a Resolução CNJ 332/2020 estabeleceu princípios para o uso de IA no Judiciário, mas o arcabouço normativo ainda está em construção.

Como participo da Comissão Especial de IA e Inovação do Instituto da OAB como vice-presidente, acompanho de perto as disputas interpretativas sobre responsabilidade, transparência e auditabilidade de sistemas algorítmicos. O que a pesquisa confirma é que esses não são temas de nicho: são preocupações disseminadas entre profissionais de todo o mundo.

A preocupação com privacidade também tem endereço certo no contexto jurídico. Processos judiciais contêm dados sensíveis: dados pessoais, dados de saúde, dados financeiros. A LGPD (Lei 13.709/2018) estabelece obrigações claras para quem trata essas informações, e o uso de ferramentas de IA no fluxo de trabalho jurídico precisa ser compatível com essa legislação. Ferramentas que enviam dados para servidores externos sem criptografia adequada, sem política de retenção clara ou sem modo de privacidade, são incompatíveis com o padrão ético e legal exigido da advocacia e da magistratura.

O que os dados revelam sobre aprendizado e atrofia cognitiva

Nessa toada, um dos achados mais provocadores da pesquisa diz respeito ao binômio aprendizado versus atrofia cognitiva. 33% dos participantes mencionaram IA como um benefício real para o aprendizado. Ao mesmo tempo, 17% expressaram preocupação com atrofia cognitiva decorrente do uso excessivo.

O dado mais alarmante: educadores foram de 2,5 a 3 vezes mais propensos a relatar atrofia cognitiva em primeira mão, provavelmente observando seus estudantes. Como formadora de juízes pelo TST, ENAMAT, CSJT e pela École Nationale de la Magistrature da França, esse dado me provoca. O que estamos vendo nos cursos de formação? Os novos profissionais estão usando IA para aprender, ou para simular que aprenderam?

A pesquisa traz um elemento importante: quando o aprendizado é voluntário e autodirigido, os benefícios da IA são mais sólidos e a atrofia cognitiva é menos frequente. Profissionais autônomos reportaram altas taxas de benefícios e baixíssimas taxas de atrofia. O problema parece surgir quando a IA é usada como atalho dentro de estruturas institucionais, como substituta do esforço de aprender, e não como aceleradora desse esforço.

Para o Judiciário e para a formação jurídica, a lição é clara: o uso de IA precisa ser acompanhado de uma pedagogia de supervisão crítica. Usar a ferramenta é necessário. Entender o que ela fez, verificar sua resposta e manter a capacidade de raciocinar sem ela é insubstituível.

O que 81 mil vozes dizem sobre o futuro que queremos

A pesquisa da Anthropic revela que 67% dos participantes têm sentimento predominantemente positivo em relação à IA. Países de renda média e baixa são consistentemente mais otimistas do que os países europeus e norte-americanos, em parte porque percebem a IA como um nivelador de oportunidades, não como uma ameaça ao emprego existente.

No Brasil, essa perspectiva tem paralelo direto na realidade jurídica. Profissionais em cidades menores, sem acesso a grandes bancas, sem estrutura de pesquisa sofisticada, encontram nas ferramentas de IA uma forma de competir em condições mais equilibradas. Um advogado em uma comarca do interior do Pará pode acessar, por meio de IA, o mesmo nível de suporte de pesquisa que um sócio de uma grande banca em São Paulo.

Mas o estudo também é honesto sobre os riscos. A preocupação com empregos e economia foi o preditor mais forte de sentimento negativo em relação à IA, globalmente. No Direito, o debate sobre quais funções serão automatizadas e quais permanecerão humanas está apenas começando. Minha posição é que a supervisão humana qualificada, a responsabilidade ética e o julgamento fundamentado em valores jamais poderão ser delegados a algoritmos. Essa é a fronteira que precisamos defender com clareza.

Perguntas frequentes sobre IA no Judiciário

O que os advogados mais ganham ao usar IA no trabalho?

Segundo a pesquisa da Anthropic com 80.508 usuários, os principais benefícios relatados por profissionais do Direito são: aceleração de tarefas repetitivas, suporte à tomada de decisões e síntese de grandes volumes de informação. Advogados reportam as maiores taxas de benefícios realizados em decisões, mas também as maiores taxas de contato com erros e alucinações da ferramenta.

A IA pode substituir o julgamento do juiz ou do advogado?

Não. A inteligência artificial pode auxiliar na pesquisa, na organização de informações e na redação de minutas, mas o julgamento fundado em valores, experiência e responsabilidade ética é exclusivamente humano. A Resolução CNJ 332/2020 já estabelece que o uso de IA no Judiciário deve sempre preservar a supervisão e a decisão humanas como condição inafastável.

Qual é o maior risco da IA para profissionais do Direito?

A pesquisa global da Anthropic aponta a confiabilidade como principal preocupação: 26,7% dos participantes temem erros, alucinações e informações incorretas geradas pela IA. No Direito, onde uma citação errada ou uma interpretação equivocada pode comprometer uma causa, a verificação crítica de tudo o que a IA produz não é opcional: é dever profissional.

Como a LGPD afeta o uso de IA em processos judiciais?

A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exige que o tratamento de dados pessoais seja realizado com base legal adequada, com transparência e com medidas de segurança proporcionais ao risco. O uso de ferramentas de IA que processam dados de clientes ou de partes processuais precisa ser compatível com a LGPD, especialmente quando envolve dados sensíveis como dados de saúde, financeiros ou de menores.

IA pode causar atrofia cognitiva em profissionais do Direito?

Sim, é um risco real identificado na pesquisa: 17% dos participantes relataram preocupação com atrofia cognitiva. Educadores foram de 2,5 a 3 vezes mais propensos a observá-la em seus alunos. O antídoto é o uso crítico e supervisionado: usar IA como aceleradora do raciocínio, não como substituta dele. Profissionais que usam IA com autonomia e verificação ativa apresentam menores taxas de atrofia do que os que a usam como atalho.

Conclusão: a IA que queremos no Judiciário é aquela que amplia, não substitui

Os dados da pesquisa da Anthropic chegam em um momento em que o debate sobre inteligência artificial no Brasil está ganhando contornos mais concretos. O Congresso Nacional avança na regulação, o CNJ aprofunda as diretrizes para o uso de IA no Poder Judiciário, e os profissionais do Direito precisam tomar decisões sobre quais ferramentas adotar, como usá-las e onde estabelecer os limites.

O que 81 mil pessoas revelam, ao fundo, é que a IA vai bem quando amplifica o que há de melhor nos seres humanos: a capacidade de aprender, de resolver problemas complexos, de liberar tempo para o que realmente importa. Vai mal quando serve de atalho para evitar o esforço de pensar, quando substitui o julgamento crítico ou quando opera sem supervisão responsável.

No Judiciário, não podemos nos dar ao luxo de errar por conta de uma alucinação de algoritmo ou de uma delegação inadequada de responsabilidade. A IA que queremos é a que nos torna melhores profissionais, não a que nos dispensa de sê-lo.

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Referências

  • Anthropic. What 81,000 People Want from AI. Março de 2026. Disponível em: anthropic.com/features/81k-interviews
  • CNJ. Resolução 332/2020: Ética, transparência e governança na produção e no uso de Inteligência Artificial no Poder Judiciário.
  • Brasil. Lei 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).